Publicado por: Rina Pri | 09/06/2010

Teoria das Expectativas Desfeitas

::: Sábado eu estava em São Paulo (feriado, ótimo, foi por lá), e tudo que eu precisava era reler esse texto. Gritei por socorro no Twitter, pedi pra Ana Laura Nahas republicar, porque tava num link antigo e off. Ela republicou. E eu vou colocar aqui, pra ajudar a nunca mais perder.

Teoria das Expectativas Desfeitas

Podia ser uma história sobre o amor ou o tempo ou o vazio ou os três, que em tantas histórias são como se fossem uma coisa só. Podia ser sobre ter insônia ou comprar óculos novos, sofrer com a saúde pública ou de paixão platônica, dizer toda a verdade ou a dor que não tem conserto. Podia ser sobre a sensação de que a política não serve, o tráfego aéreo não serve, os vizinhos que matam velhinhos não servem e só o Rogério Ceni salva.

Podia ser qualquer coisa, ou nenhuma. O fato é que um leitor-amigo, há algum tempo já, quer saber da Teoria das Expectativas Desfeitas, e eu de fato disse um dia que explicava dela. Faz tempo, eu sei, e é possível que ninguém além de nós dois se lembre disso, mas promessa é dívida, e eu demoro, mas pago.

A verdade é que a Teoria das Expectativas Desfeitas nem é uma teoria direito. Ao contrário dos Postulados de Newton, do Princípio de Arquimedes e das Leis do Movimento Planetário, devidamente comprovados por homens de clara vocação para os números e para a lógica do universo, a Teoria das Expectativas Desfeitas não passa de um achismo, daqueles bons e muitíssimo baratos, desenvolvido por mim, que fugi o quanto era possível das aulas de Física, numa noite de falta de sono e alguma alegria arruinada.

Ela se justifica pelo fato (triste, mas inevitável e certeiro) de que, cedo ou tarde, o amor não vinga, a flor não sobrevive, o telefone não toca, o aumento de salário não vem, a dieta não funciona e a gente chora uma dor que não se conta, existe e depois passa.

A Teoria das Expectativas Desfeitas, se fosse mesmo uma teoria, registrada, rotulada e analisada, teria sempre as mesmas causas, mas nomes diversos em culturas diferentes, e em cada lugar do mapa, imagino, seria feita de sintomas distintos – torcer o pescoço do culpado pela desilusão em comunidades mais violentas, contemplar o nada nas regiões mais remotas do Tibet ou comprar desenfreadamente nas esquinas da Aleixo Neto, dependendo da maneira como cada sociedade encarasse o fato popularmente conhecido como cair do cavalo.

O que não muda, seja num quarto repleto de livros, numa esquina de Montmartre ou no ponto exato em que Judas perdeu as botas, é que construímos laços que não necessariamente terão finais felizes, criamos esperanças de que seremos reconhecidos no trabalho quando não necessariamente seremos, acreditamos que seremos amados até o fim da vida apesar das desilusões anteriores, alimentamos a crença na evolução e na serenidade quando não necessariamente há movimento e sossego.

Freud não explica; Einstein talvez sim, porque a Teoria da Relatividade (esta sim uma teoria de verdade) determina que dois referenciais diferentes oferecem visões diferentes, e ambas perfeitamente aceitáveis, de uma mesma coisa. Em bom português, Einstein diria que dois olhares enxergam uma mesma coisa de modos completamente diversos e isso, talvez mais do que qualquer coisa, justifique os desapontamentos, as dores e as decepções que nascem quando um ama e o outro cansa, um acredita e o outro mente, um investe e o outro tira, um acalma e o outro grita.

Segundo Einstein, não há no mundo um sistema de referência capaz de medir, sozinho, todos os movimentos, porque toda medição do espaço e do tempo é subjetiva. Ele falava de Física, é verdade, não de amor, de trabalho ou de esperança; tentava interpretar a influência de sei lá o que na interação dos corpos em movimento, não nos sentimentos alheios; pensava em altura, comprimento, profundidade, espaço-tempo, forças gravitacionais e eletrodinâmica, não em vazio, riso, coração partido, alegria, rancor, afeto.

Mas dizia, entre fórmulas e outras coisas indizíveis, coisas que talvez expliquem a dor daquele tempo ou o vazio de toda a vida – ou tornem dor e vazio relativos, como são o tempo, o olhar, o espaço e um mundo inteiro de expectativas desfeitas.

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Responses

  1. Esse texto é ótimo! A Ana Laura Nahas é ótima!
    =)


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