Publicado por: Rina Pri | 28/09/2013

Samba do avião

Música incidental 1: “quem foi”, Marisa Monte.

::: Costumo dizer que eu tenho saudades de coisas que nunca foram. Saudades de lugares que nunca fui, pessoas que não conheci, de musicas que nunca foram de mim para ninguém.

Mas talvez pior do que a saudade do que nunca se teve, é perder o que nunca se teve. É uma curiosa dor de perda. Porque dói como se fosse de verdade, mas se nao foi algo que existiu, porque isso?

Música incidental 2: Our day will come – Blossom Dearie

Provavelmente porque existiu, afinal, em algum momento. O sentimento de existência, ao menos. Mesmo que nunca tenha se concretizado verdadeiramente de verdade.

E aí, quando essa coisa que nunca existiu mas esteve ali por um tempo termina, acaba, passa, fica a dor. Aquele vazio existencial. Aquela coisa remoendo no fundo.

Música incidental 3: Sutilmente – Skank

E aí, mesmo a mils pés de altura, mesmo querendo-precisando-devendo dormir, a única coisa que resta é deixar o rosto ser molhado por aquelas lágrimas que doem.

Doem porque não existiu. Doem porque, afinal, existiu em algum momento. Doem pela expectativa frustrada por nunca ter se tornado realidade. Pelo desejo e pela vontade de que tivesse sido diferente.

Música incidental 4: O amor é filme – Lisbela e o Prisioneiro

Não adianta brigar. É melhor deixar que essas tais lágrimas escorram e molhem a almofada que mal da suporte para a cabeça durante essa forma desajeitada e apertada de dormir em um avião.

Porque até mesmo as coisas que nunca existiram de verdade mas foram verdadeiramente sentidas precisam de um período de luto. E todo luto merece respeito.

(Musicas incidentais na ordem real que tocaram exatamente enquanto escrevia esse texto, que apareceu pouco antes de tocar “A minha gratidão é uma pessoa”, Nando Reis)

E isso tudo me lembrou esse poema:

One Art
(Elizabeth Bishop)

The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.

—Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster
.


Responses

  1. Se eu te disser q te entendo perfeitamente vc acredita? Já chorei de soluçar de saudade por algo q não foi. Já fiquei com aperta na alma por aquilo q existiu só pra mim. E ainda sinto nostalgia por algo q poderia ter sido, mas definitivamente não foi. Enfim. Eu te entendo. MESMO.

  2. […] podia mais não chorar, não podia mais “ser a forte”. A última vez que chorei foi no avião. Contida, pra não perturbar, pra não despertar nenhum tipo de “interesse” sobre mim. […]


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