rina pri

Relato de parto, ou: faz um ano que Joana nasceu

Filha, você hoje faz 1 ano. UAU! Faz um ano que eu acordei com uma coliquinha que virou colicona, contração, ai que loucura.

Faz mais de um ano que a gente te espera. Desde aquele 12 de agosto, quando eu fiz xixi no palito e a listrinha rosa apareceu, eu liguei pro seu pai (que tinha dado aula em outra cidade, na noite anterior, e estava na estrada, voltando) e chorei. Liguei também pra tia Adelise, pra sua avó e seu avô, seus tios Iéu e Lúcio. E chorei. E fui pro pilates e contei pra Fernanda, a professora. Eu tremia de nervoso. De alegria. Mais de nervoso mesmo.

Faz mais de um ano que eu tava lá pançudona e coloquei essa música pra você ouvir, e chorei que só. Dá vontadinha de chorar até hoje, toda vez que lembro da música e começo a cantarolar e lembro de você mexendo na barriga, de você nascendo, de você olhando pra mim com esses olhinhos mais espertos e sapecas.

Um ano de você do lado de fora. Um ano de mamãe e papai e filha. Um ano. Passou rápido! Eu não acreditava que passaria, não entendia como era esse “passar rápido”, mas passa, sim. Muito! Você já não fica mais parada (não mesmo!), não dorme mais se a gente sai de casa (você quer ver o mundo!), não mama só o leite da mamãe e não come mais papinha. Mas ainda usa fraldas 😝

Eu tô há dias pensando no seu aniversário, comemorando aos pouquinhos, feliz da vida por você. Comemoramos muito no meu aniversário, dois dias atrás, e vamos festejar ainda por mais uns dias, até passar o aniversário do papai. Pois é, você nasceu no meio das festas todas. Em abril. Na lua cheia. Numa segunda-feira. Na véspera da tradicional virada de tempo de final de abril (que parece que chegou mais cedo, este ano).

Só um ano, é tão pouco e tanto tempo! Você já tem tanta vida, já sabe e já faz tanta coisa! Você dá passinhos segurando na mão da gente ou em alguma coisa. Você dança quando tem música, folheia livros, sabe mostrar seu pé e faz narizinho, dá tchau, joga beijo, dá abraço. Tem 3 dentes e meio. Brinca sozinha, engatinha muito rápido, aponta para o que quer. Come pão (e muito!). Faz não com a cabeça e com o dedinho. Fala papai, mamãe, vovó, vovô, tchau, tetê, uauau, não (muito, como você fala não!). Também fala muito tatatatata tetetete uauauaua.

Você já demonstra personalidade e firmeza de caráter ao negar absolutamente tudo (TUDO, até quando quer alguma coisa). Faz “bichinho”, enrrugando o nariz e fungando (é a coisa mais deliciosa!). Não curte banana ou mamão – mas adora comer papel! Também se amarra em auau e piupiu. Você fica feliz da vida na água – na piscina ou mesmo na banheira. O papai disse que você tem a minha gargalhada doce e contagiante. Mas com certeza tem as caretas todas do papai! E também a batata da perna e as unhas!

Você já aprendeu a fazer 1 com o dedinho pra comemorar seu 1º ano.

Nosso primeiro ano. Que loucura e que delícia que tem sido!

Essa é a história de como você chegou. O nosso relato de parto.

7 de abril. Foi nessa data que eu saí de licença maternidade. Com 37 semanas e 6 dias. Era uma quinta-feira, na sexta eu completaria 38 semanas.

Na segunda, dia 04, eu tinha sentido uma coliquinha. Diferente das contrações de treinamento, que apareciam desde as 20 e tantas semanas, era uma cólica mesmo, no pé da barriga. Passou. Vida que segue. Eu já tinha me programado para trabalhar até a sexta, quando completasse 38 semanas. Estava cansada, já ficava de casa ao menos uma vez por semana, queria parar. Essa história de “vou trabalhar até antes de parir” não ia rolar MESMO. Mas aí na quarta, dia 6, acordei com cólicas novamente. E preferi parar. Eu já ia ficar em casa nesse dia, então dei aquele gás pra terminar tudo o que precisava. E no dia 7, quinta-feira, eu parei.

Parei, terminei de arrumar a mala para a maternidade e… fiquei esperando. Assisti seriado. Dormi. Fiz pilates. Dormi. Comi coisas gostosas. Fiquei de férias. 19 dias de férias, até o dia 25 de abril!

Mas antes do dia 25 vinha o dia 23 e era meu aniversário. Antes do meu aniversário teve a sexta-feira, 22, dia em que a lua ficou cheia, em que completei as 40 semanas e tive uma crise de choro. Que talvez, refletindo, tenha sido a minha despedida de mim, da Rina que eu conhecia e tinha vivido até aquele momento. Eu estava nervosa, irritada, e fui tomar um banho. Talvez pela demora, talvez por ter me ouvido, André apareceu no banheiro depois de um tempo. E entrou no chuveiro comigo, me abraçou, me deu colo para chorar. E eu chorei um monte e mais um pouco, solucei. E é tudo o que eu lembro desse dia.

No sábado, 23, fomos comemorar meu aniversário com um almoço no Outback. Não lembro o que fizemos de noite. Sei que no dia 24 fomos comer no Esfiha Juventus (que delícia de esfirra!), depois andei por uma quadra grande até o caixa eletrônico, voltamos para o carro. Eu estava bem, disposta, coisa que era bem raro.

Tive dificuldade pra dormir de domingo pra segunda. A última vez que olhei no relógio era 1h30am. Como de praxe, 3h30 eu acordei – todos os dias eu acordava por volta das 4 da manhã pra ir fazer xixi, TODOS OS DIAS. Mas dessa vez não acordei (só) pra ir no banheiro. Era uma dor, uma contração forte, um aperto que vinha das costas, nas costelas, até o pé da barriga. “Eita, será?”

Passou. Levantei, fui ao banheiro (porque, né), deitei e não dormi mais, não senti mais nada. Fiquei jogando no celular até as 4h, quando veio outra contração. E a partir daí, não parou mais até terminar o trabalho de parto.

Era umas 5h30 quando acordei André, que dormia deliciosamente. Que inveja! hahaha Acordei, ele fez café e trouxe pra mim. Café com leite, bisnaguinha com requeijão. Comi, avisei à doula, começamos a monitorar as contrações. Elas estavam irregulares, ora muito longas, ora curtas. Janie, a minha doula, falou pra eu ir pro chuveiro, pra acalmar e ver se ganhava ritmo. Ela estaria a caminho. Avisamos à equipe (obstetra, parteira, pediatra e fotógrafa).

Não sei em que momento André assumiu a marcação das contrações. Não lembro de muita coisa. Só lembro que eu não conseguia ficar em pé, nem sentada, nem deitada. Nem no sofá, nem na cama. O único lugar confortável era no chuveiro, sentada na bola de pilates. Eu gritava, muito! E foi assim que a Janie, minha doula, achou a casa, quando chegou na praça que ficava em frente 😀

Doía, muito. Toda vez que eu pensava em me concentrar na contração, quando eu achava que estava entendendo o ritmo e conseguiria respirar acompanhando, elas mudavam.

Não sei quanto tempo depois que a Janie chegou, a Karina, parteira, chegou. Depois de tudo eu ouvi ela falando que nem precisava ter feito toque, que dava pra ver na minha cara que eu precisava ir ao hospital, e também que eu não tinha uma linha purpúera, era uma transamazonica inteira, de tão grande que já estava. Mas ela tentou fazer o toque, sem sucesso, porque eu não parava de ter contrações. Então, bora pro hospital.

O vestido que eu iria para o hospital já estava separado. Enfiei no corpo, calcei alguma coisa (chinelo?) e fui. Calcinha e sutiã? Que nada! André já tinha descido pra pegar o carro no estacionamento (que era em frente de casa) e levado a mala. Eu não sei que lucidez que tive mas expliquei pras meninas qual chave fechava o que na casa (porta, portão) e saí. Janie foi no carro comigo, eu sentada (COMO fazer uma mulher de 1.80m, grávida, ir ajoelhada no banco de trás de um carro ~pesquisar). E gritando. Entre uma contração e outra eu ria de mim mesma gritando feito uma sirene, imaginava o que as pessoas estavam pensando, torcia pra chegar logo e sentia queimar meu canal vaginal – o tal círculo de fogo veio bem na hora do carro! Ainda bem que o hospital ficava MUITO perto de casa – menos de 2km. Se fosse um trajeto de 20, 30 minutos, acho que teríamos um parto domiciliar!

Chegando no hospital, me ofereceram cadeira de rodas, que eu neguei. Precisava andar. Consegui caminhar até o sofá da recepção – lindo, lilás, encostado na parede de vidro que fazia divisa da recepção com a cafeteria. Ali eu ajoelhei pra uma contração fooooooooorte. A enfermeira do hospital veio me perguntar se eu sabia meu nome e se poderia gritar um pouco mais baixo. Eu devo ter matado a moça umas 15 vezes com meu olhar. Quando passou a contração eu gentilmente respondi:

– Meu nome é Rina e não, eu não posso gritar mais baixo!

Alguém me levou até a sala de triagem, das burocracias obrigatórias. Camila, a minha obstetra, nos encontrou lá, e conseguiram fazer o exame de toque, o primeiro da gestação inteira. 8cm. OITO FUCKING CENTÍMETROS, TÁ NASCENDO, GENTE. Tinham 2 ou 3 mães lá, esperando, uma no soro, talvez fazendo indução, e outras duas que claramente também não estavam em trabalho de parto. Estavam muito calmas, quietas e me olhando esbugalhadas 😀

Subimos para a sala de parto, a tal delivery. No caminho, vi doula, parteira e obstetra me darem a força que eu precisava ali. Na sala de parto, novamente foram elas que olharam no fundo dos meus olhos e me ajudaram a me encontrar e terminar o processo, quando me orientaram na força que eu deveria fazer. Chegamos. Enche a banheira, eu quero a banheira, banheira, socorro, água. Ouvi ao longe alguém falar em bolsa e “COMO ASSIM A BOLSA NAO ESTOUROU ESTOURA ISSO POR FAVOR” e “calma, Rina, já estourou! Acabou de estourar!”. Eu não senti. A bolsa rompeu, saiu líquido e eu não reparei. (ou não saiu líquido, né, bebê mega encaixada, já no canal etc, sei lá se dava pra sair alguma coisa além dela).

Me desceram da maca, mandaram eu tirar meu vestido, mas eu só conseguia pensar na água. Coloquei os pés e a dor começou a aliviar. Que coisa mágica! Tirei o vestido, sentei na banheira e… “Rina, abaixa esse quadril!”. Eu levantava o quadril nas contrações, querendo me livrar da dor, mas eu precisava me concentrar – foi aqui que os três olhares me trouxeram de novo pra Terra. “Faça a força certa, a força que você sabe que precisa fazer”.

Me concentrei. Passei a mão no cabelinho da Joana, já dava pra sentir, que coisa louca! Aí foram duas forças, duas contrações, dois puxos. Saiu a cabeça, logo depois o corpinho. Saiu a Jojô. Nasceu! Peguei a bebê, a coloquei no meu colo, gente, que coisa! “Mas é a cara do pai!” foi o que eu falei, as primeiras palavras. Eu ria, muito. Ela olhou pra cima, deu uma gemidinha e ficou ali, quietinha, quentinha. Nicole, a neonatologista que escolhemos, ainda não tinha chegado – havia ficado presa no trânsito da segunda de manhã. A plantonista foi muito legal e aceitou a nossa decisão e pedido da obstetra de deixar o cordão parar de pulsar e não fazer nenhuma intervenção. André cortou o cordão, levaram Joana. Enquanto eu saía da banheira e ia para a cama, ela foi pesada e medida, enrolada, e logo voltou pro meu colo.

Pari a placenta não muito tempo depois – acho que foi neste momento que André ficou com ela no colo. Mamou logo que nasceu, na “hora de ouro”. Ficou ali comigo, todo mundo cheio de ocitocina, aquela coisinha tão pitica. A neonatologista, que não chegou antes do expulsivo, chegou logo depois e ficou com a gente por mais de 1h. Me ensinou a amamentar, me ajudou. Tania, a fotógrafa, que também não chegou a tempo e quase perdeu outro parto*, ficou por ali também mais um tempo.

A primeira contração foi às 3h30. Chegamos no hospital por volta das 10h15. Joana nasceu às 10h55. Foi tudo muito rápido.

“Ain, Rina, mas que bom que foi rápido!”. Olha, eu não sei. Não tive tempo de pensar, de processar nada. As contrações vinham muito encavaladas, me sentia numa correnteza brava. Aquela história de “contrações são como ondas, quando uma passa, você descansa um pouco, come, ri, até dorme!” não rolou. Se contração é onda, as minhas vieram logo feito tsunami.

Talvez se eu não tivesse contratado uma equipe particular, “equipe humanizada”, eu tivesse tido um parto normal tranquilo com o plantonista. Foi muito rápido. Talvez não, porque eu iria pro hospital, chegaria lá e o trabalho de parto pararia de evoluir, ou me ofereceriam uma anestesia fora de hora e isso atrapalharia (eu nem lembrei de anestesia, gente, de tão rápido, já tava na banheira quando lembrei e não precisava. Eu achei que fosse pedir). Talvez alguém não tivesse acreditado em mim e eu não teria encontrado a força que vi nos três olhares que me acompanharam. Talvez eu tivesse seguido o pré-natal com algum obstetra muito bacana, mas que me encaminharia pra uma cesárea porque “insira aqui qualquer motivo sem fundamento”.

O fato é que a equipe foi fundamental para nos dar segurança (a mim e ao André) das nossas escolhas. As conversas com a Janie, sobre parto e criação de filhos, foram essenciais para nos dar uma base que tem delineado nossas escolhas com Joana. Ter uma obstetra e uma parteira que acreditavam que eu era capaz, que minha idade, peso, cor do cabelo, do esmalte ou da calcinha não incluenciavam diretamente na minha gestação e parto, foi essencial.

Foi essencial ter o companheirismo e amor do André por todo o caminho – tem sido. 

Foi importantíssimo ter a conversa com a Carla, coisa de um ano antes de engravidar, e descobrir que eu podia ter anestesia num parto normal – foi a partir daí que eu comecei a ler sobre parto e entender o que eu queria, o que eu podia. Cheguei na Camila Escudeiro, obstetra, por indicação de uma amiga. “Ela faz parto normal e aceita alguns convênios”. Vamos lá. Nem sei se a primeira consulta foi com ela ou com a Karina, na Commadre. Mas encontrar essa equipe, que nos acolheu tanto, fez muita diferença. As consultas com as parteiras da casa – Karina, Thais, Luciane; com a Camila; escolher a pediatra que acompanharia o parto e depois os meses todos. As conversas com a Janie. As discussões em casa.

Ter acesso a informação e ter gente que me ajudasse a entendê-la, saber que eu podia, sim, discutir com o médico sobre condutas foi primordial. Confiar, mas não cegamente, foi primordial.

Depois do parto, seguimos o acompanhamento mensal da Jojô com a Nicole. E encontrei, novamente na Commadre, o melhor grupo de pós-parto que eu poderia desejar. Mulheres fortes que me ajudaram a passar pelos primeiros meses do puerpério, que me sustentaram na volta ao trabalho e até hoje fazem os dias longe da Joana, enquanto trabalho, mais leves.

 

*A Tânia fez uma troca conosco, fotos do parto em troca de divulgação no portfolio dela. Antes de nós, ela tentou duas gestantes – uma delas a Juliany, mãe do Léo e do Samuel, companheira de grupo de pós-parto ❤
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